BIOLOGIA A 29 - Clonagem

Em 1997, a notícia de um experimento realizado na Escócia revolucionou a ciência e levantou discussões éticas na sociedade: a primeira clonagem de mamífero bem-sucedida do mundo – a ovelha Dolly. A mídia do mundo noticiou a nova técnica fervorosamente e a população vibrou com as possíveis promessas de novos tratamentos médicos que a clonagem poderia possibilitar. Após Dolly, muitos outros animais foram clonados, e a possibilidade de fazer isso também com seres humanos foi debatida acaloradamente por cientistas, políticos e cidadãos comuns
    A ovelha Dolly não foi o primeiro ser vivo clonado do mundo. Na verdade, a clonagem já existe na Terra desde o surgimento dos primeiros seres vivos. Clonar um ser vivo significa fazer cópias geneticamente iguais a ele, como vemos nos processos de reprodução assexuada. Quando uma bactéria se divide ao meio em uma cissiparidade, formando dois novos indivíduos, temos como resultado dois clones, pois são duas células geneticamente iguais. Processo extremamente comum para unicelulares e até mesmo em alguns grupos de pluricelulares (como as plantas), a clonagem em seres vivos pluricelulares mais complexos, como em animais vertebrados, não é assim tão frequente. Porém, se partirmos do princípio de que clones são indivíduos geneticamente iguais, gêmeos idênticos (univitelinos) também são considerados clones
 
Professor Ian Wilmut criador da Dolly, o primeiro animal clonado em laboratório a partir da célula de um adulto
A clonagem reprodutiva aplicada para produzir Dolly Mas, se a clonagem já existia naturalmente na história evolutiva, por que Dolly fez tanto estardalhaço? Acontece que a famosa ovelha foi clonada a partir da célula de uma outra ovelha já adulta. Ou seja, de uma célula adulta somática diferenciada de um animal bastante complexo e com proximidade filogenética com a espécie humana: um mamífero. Na técnica utilizada para produzir Dolly, cientistas retiraram o núcleo de uma célula da glândula mamária de uma ovelha de 6 anos. Posteriormente esse núcleo foi colocado no interior de um óvulo cujo núcleo havia previamente sido retirado. Correntes elétricas fizeram com que as partes das duas células se fundissem. Ao fazer isso, o óvulo com núcleo de adulto passou a se comportar como um zigoto e se desenvolveu em um embrião. Assim, o embrião que deu origem à Dolly foi implantando em uma ovelha “barriga de aluguel” que gerou o clone mais famoso do mundo. A técnica utilizada em Dolly causa um grande stress nas duas células que são fundidas. Isso gera uma enorme mortalidade das células resultantes. Este é um dos principais impedimentos éticos de se aplicar a clonagem em seres humanos. Muitos embriões formados a partir da técnica logo morreriam e os cientistas correriam um risco grande de gerarem embriões humanos com más formações gravíssimas. Sendo assim, muitos países elaboraram leis de biossegurança (incluindo o Brasil), onde a clonagem reprodutiva (em que se clona um animal adulto visando produzir um clone) humana foi totalmente proibida
 

Clonagem terapêutica 
Dolly foi um experimento que permitiu o desenvolvimento de várias outras técnicas, entre elas, a mais famosa é a clonagem terapêutica. A técnica se inicia de maneira muito semelhante à clonagem reprodutiva. A principal diferença é que o embrião desenvolvido a partir da clonagem não será aplicado em uma barriga de aluguel para se desenvolver, mas será cultivado em laboratório. A ideia, portanto, não é desenvolver um novo indivíduo, mas sim tecidos e órgãos com o código genético do indivíduo que doou o núcleo. Você deve lembrar aqui que as células de um embrião são chamadas de células-tronco totipotentes, uma vez que são capazes de se diferenciarem em qualquer célula do corpo de um animal. Já uma célula somática, como a retirada da glândula mamária da ovelha da qual Dolly foi clonada, já não consegue se diferenciar. Assim, as células de um embrião poderiam ser utilizadas para produzir novos tecidos e órgãos, coisa que não seria possível a partir de células adultas
    Sendo assim, o principal uso da clonagem terapêutica seria a sua aplicação em transplantes. Sendo o tecido gerado neste processo geneticamente igual às células do indivíduo que fez a doação, a taxa de rejeição a um órgão ou tecido transplantado praticamente chegaria a zero. Isso aumentaria em muito a expectativa de vida das pessoas transplantadas, além de melhorar a sua qualidade de vida, uma vez que a ingestão de medicamentos anti-rejeição não seria necessária. Teoricamente, a técnica também poderia diminuir ou até mesmo acabar com as filas de transplantes de órgãos, uma vez que eles seriam produzidos em laboratório. Porém, apesar de mais de vinte anos terem se passado desde Dolly e de a engenharia genética ter se aprimorado consideravelmente, os tratamentos sonhados a partir da clonagem terapêutica ainda estão longe de serem viáveis para a aplicação médica
    Dolly, infelizmente, morreu mais jovem do que a maioria das ovelhas. Enquanto a maioria vive aproximadamente doze anos, Dolly viveu apenas seis. Seus criadores levantaram várias hipóteses, porém nenhuma foi confirmada. Uma das mais discutidas é a de que os cromossomos de Dolly, que já tinham mais de seis anos no seu nascimento, provocaram um envelhecimento precoce da ovelha. Por conta de sua origem em uma ovelha adulta, provavelmente era como se todas as células de Dolly já tivessem seis anos ao nascerem e continuassem envelhecendo a partir daí. Esta é uma ideia bastante provável, já que um dos processos que nos leva a envelhecer é a quebra de pequenos pedacinhos das pontas dos nossos cromossomos (telômeros) a cada vez que nossas células se dividem. As células de Dolly surgiram com essas partes mais gastas do que de um bebê-ovelha comum, uma vez que seus cromossomos vieram de uma célula já adulta.